Serás minha voz quando meu peito calar. Contarás minhas histórias, declamarás os meus versos, cantarás minhas canções preferidas e falarás a meus filhos e netos sobre tudo o que não consegui fazer. Serás os meus olhos quando os meus se cerrarem: verás por mim toda a beleza de um nascer do sol no Arpoador, todos os inventos que surgirem e, com espanto, o inevitável florescer de duas ou três gerações adiante que vierem de nós dois. No dia em que minhas mãos não mais lhe tocarem, prometa por mim aprender o piano, a flauta ou o violão. E ainda que teus dedos não mais firmes estejam para experimentarem o sabor das notas musicais, o que de novo eles acariciarem o farão por mim também. Prometa fazer cafuné e catar piolhos das cabeças de meus netos como uma boa avó faria. Quando meus pés não mais me trouxerem ao chão, caminhe todas as maratonas que conseguir. Suba todas as trilhas que não conhecemos com meus pés, ainda que seus oitenta anos a impeçam de terminar o percurso sem sentir o peso dos seus. Prometa nadar como sempre nadou, bailar como sempre bailou e até andar de bicicleta - coisas que nunca consegui fazer! Por favor, faça-as por mim. Quando minhas letras se apagarem, forem molhadas de lágrimas ou queimadas na fogueira, não se faça de rogada: relembre-as com o carinho de quem as fez, pois não há retrato sem musa nem busto de praça sem homenageado. Encare cada letra minha como a declaração universal do maior amor do mundo, como o contrato assinado de eterno amor aos nossos sonhos e planos. E, ainda que nada mais dê certo, lembre-se que ali, naquela praça, desejamos juntos a eternidade sob um temporal. E quando o temporal passar, seremos de algum jeito mãos dadas quando não mais a tivermos. E nem nossos olhos olharem, vozes falarem, letras contarem, toques tocarem, sabores saborearem ou cheiros cheirarem. Quando tudo isto se perder, de um lado, do outro ou dos dois ao mesmo tempo, sobrará ao eterno o único sentido que é capaz de entrar para a História: o do amor amar.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Oração aos Eleitores Indecisos
Serás minha voz quando meu peito calar. Contarás minhas histórias, declamarás os meus versos, cantarás minhas canções preferidas e falarás a meus filhos e netos sobre tudo o que não consegui fazer. Serás os meus olhos quando os meus se cerrarem: verás por mim toda a beleza de um nascer do sol no Arpoador, todos os inventos que surgirem e, com espanto, o inevitável florescer de duas ou três gerações adiante que vierem de nós dois. No dia em que minhas mãos não mais lhe tocarem, prometa por mim aprender o piano, a flauta ou o violão. E ainda que teus dedos não mais firmes estejam para experimentarem o sabor das notas musicais, o que de novo eles acariciarem o farão por mim também. Prometa fazer cafuné e catar piolhos das cabeças de meus netos como uma boa avó faria. Quando meus pés não mais me trouxerem ao chão, caminhe todas as maratonas que conseguir. Suba todas as trilhas que não conhecemos com meus pés, ainda que seus oitenta anos a impeçam de terminar o percurso sem sentir o peso dos seus. Prometa nadar como sempre nadou, bailar como sempre bailou e até andar de bicicleta - coisas que nunca consegui fazer! Por favor, faça-as por mim. Quando minhas letras se apagarem, forem molhadas de lágrimas ou queimadas na fogueira, não se faça de rogada: relembre-as com o carinho de quem as fez, pois não há retrato sem musa nem busto de praça sem homenageado. Encare cada letra minha como a declaração universal do maior amor do mundo, como o contrato assinado de eterno amor aos nossos sonhos e planos. E, ainda que nada mais dê certo, lembre-se que ali, naquela praça, desejamos juntos a eternidade sob um temporal. E quando o temporal passar, seremos de algum jeito mãos dadas quando não mais a tivermos. E nem nossos olhos olharem, vozes falarem, letras contarem, toques tocarem, sabores saborearem ou cheiros cheirarem. Quando tudo isto se perder, de um lado, do outro ou dos dois ao mesmo tempo, sobrará ao eterno o único sentido que é capaz de entrar para a História: o do amor amar.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Naum
A rachadura no solo da testa quando sobe não quer mais descer. A sobrancelha mantém levemente levantada a sua ponta direita. O leite escorre suavemente pelo canto esquerdo dos lábios quando bebido sem atenção. A nuvem negra da noite interminável penumbra qualquer gota de orvalho ou raio de sol. É tudo. É nada. É apenas o fim. A calota craniana torna-se discretamente saltada, provocando um pequeno galo no côco. Os dedos são arqueados, sintoma dos mil anos de datilógrafos e digitadores. As unhas, arroxeadas, exibem dez pintas brancas. Uma pinta para cada mentira. As doze pedras estão na mão, e prometem murmurar maledicências até o último suspiro. O RG, parado em algum ponto do estômago, foi dobrado e engolido para facilitar a identificação do cadáver caso o avião venha a cair. Decolou um milhão de vezes por dia. Averso a todas as possibilidades de cura, o pessimista fraqueja as canelas e recita com orgulho as dores que já conquistou. É sempre mais fácil o pior caminho: é adquirido gratuitamente em uma dessas palestras de marketing multi-níveis que prometem mundos e fundos a quem oferecer um mundo e bons fundos. Ele espera o cataclisma solar, a hecatombe lunar, a nababesca orgia do último dia. Visto de perto, só quer mesmo ver o circo pegar fogo. Feliz é quem espera o recomeço a cada esquina, quem brinda às incertezas e aplaude as vitórias de um minuto. Feliz é quem degusta embevecido um hambúrguer de microondas como se fosse a última bolacha do pacote. A última bolacha do pacote é a de limão cremoso, a última bolacha do último pacote. E, ainda que seja a do último homem, sempre há de ser a prova de que alguém pisou, sentiu e amou ali, ainda que tenha pisado, sentido e amado o que já passou. Passou. Obséquio, pessimista: vai ver se eu estou na esquina. E, de preferência, me espere sob uma escada e com um gato preto no colo. Cordiais saudações.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Partideiro Partidário
Acende, candeeiro. Ascende ao sol de janeiro o fogo fátuo da dor. Fogo sabe-se lá de onde, oriundo de um quebranto qualquer em uma encruzilhada de cimento fofo. Por cada passo dado na calçada, formam-se e desaparecem em seguida pés descalços, saltos de mulher e solas de sapato. Nas gravuras listradas e logotipos estrangeiros, figuram impressões curiosas do cotidiano dos transeuntes. Urbanóides, são todos apressados passageiros da solidão pelas estradas solenes da vida. Ativam suas antenas, mesmo em meio a uma apagão. São propostas "antenadas", sempre em busca da inventividade que de inventiva nada tem. São pés nas lamas de março, quando os temporais chegarem. Sempre atolados, no asfalto, no cimento fresco ou na lama. Entretanto, pensando bem, o sonho de muitos "descolados" é afundar os pés na neve!
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Vida Feroz
Cruzou como um raio a eternidade, sereno que esteve da indivisibilidade de seu amor pelo perigo e pela velocidade. Parou sempre nos mesmos pontos, e em todos os outros. Cantarolou os versos melosos de Luis Miguel. Conheceu o mundo. Por oito anos, fez sombra aos amigos no calor do Rio Comprido. Nas tardes de chuva, deu abrigo a todas as meninas bonitas que conhecia. E às feias também. Nas salas de aula, foi o riso, o causo e o dono do celular que tocava. Consolou cotovelos doídos, falou de amor e do medo da morte. Viveu mil namoradas. Comeu Bruna Surfistinha. Foi meu abraço de todo final de período, companhia que agora há de ficar eternamente marcada em meu pensamento. Hugo, o feroz, cruzou a estrada da vida com a velocidade da luz. Entretanto, vivo ficará em nossa lembrança com a serenidade de um beija-flor. Descanse em paz, meu amigo, ouvinte e leitor.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Antes de Mais Nada
Antes da prosa, o verso
Antes do verso, a prova
Antes da prova, aprova
E prova o mel da dor
Antes do nada, o tudo
Antes do tudo, o resto
Antes do resto, o pobre
Pobre destino que me reserva
Antes da espera, o erro
Antes do erro, o acerto
Antes do acerto, um dedo
Dedo de prosa com jeito, repito
Antes da dose, o gelo
Antes do gelo, a água
Antes da água, o som
Som do silêncio, som sem razão
Antes do sim, o não
Antes do não, o medo
Antes do medo, a prosa
Prosa de quem ama, sorte mentirosa
Antes do verso, a prova
Antes da prova, aprova
E prova o mel da dor
Antes do nada, o tudo
Antes do tudo, o resto
Antes do resto, o pobre
Pobre destino que me reserva
Antes da espera, o erro
Antes do erro, o acerto
Antes do acerto, um dedo
Dedo de prosa com jeito, repito
Antes da dose, o gelo
Antes do gelo, a água
Antes da água, o som
Som do silêncio, som sem razão
Antes do sim, o não
Antes do não, o medo
Antes do medo, a prosa
Prosa de quem ama, sorte mentirosa
domingo, 25 de outubro de 2009
Tensão Pré-Futural

Véspera de prova de vestibular, segundo antes de bater o pênalti, concurso público, primeiro beijo, primeira mão. Primeira página antes de rodar. Leito de morte, lance de sorte, jogo de azar. Entrevista de emprego, primeiro filho, segundo filho, terceiro filho. Ligadura de trompas. Exame de próstata, filho gay, divórcio, viuvez. Nota de falecimento. E-mail não respondido, telefone fora do gancho, celular desligado. Janela fechada. Luz apagada. Por baixo do edredom, a boneca treme com o amanhã atravessado na garganta. A espinha do futuro fechou-lhe a glote. Não consegue soltar o ar, pois os brônquios não a deixam. Entalada de preocupações, mareja o diário de lágrimas e borra a tinta da velha caneta-tinteiro de seu bisavô. Parker. Mesmo modelo com o qual Roosevelt assinava. Tensões pré-futurais sente a boneca, que agarra com sofreguidão suas tranças de estopa e tenta esconder com as mãos seu sorrido pintado de vermelho em formato de lua. Cara de lua-cheia. Roseia as bochechas ao pensar na madrugada, na qual viu, pela primeira vez, a luz do sol surgir com o pudor de quem descobre o outro sexo. Mal saiu da caixa. Quando a noite cai, as bonecas pensam no amanhã com a autoridade de quem não desenvolveu miolos para ter certezas. A cabeça não serve pra isso, boneca. Serve para matutar, planejar e sorver cada gota de vida que seu algodão puder viver. Serve para ver bater o sol em seus cilhos de mentira, para ouvir o som do mar em seus ouvidos sem orelhas. Serve a vida, boneca, para degustar o simplório agridoce das distensões com o solene paladar de um buon gourmet. Serve a vida, boneca, sorva-a, sirva-a, divida. Se assim achar melhor, a distribua. Sirva os seus sonhos como um tablóide de distribuição gratuita. Compartilhe-os com quem a ama e faça-os vívidos após o amanhecer.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Coração
Perdida por dentro das malhas frias, seus zíperes e paetês, pulsa emérito o músculo roteador. Distribui doses exatas do fluido vital, energizando assim as pontas dos dedos e os fios de cabelo. Torna o peito vivo o anfíbio, gelada criatura de pele lisa. Torna o peito vivo o cão, que acompanha num trote solene os passos de seu dono a afagar-lhe as batatas das pernas. Torna o peito vivo o pensamento humano, que sente, cria e mata. Escapa o homem de sua verdadeira vocação. Ao viver para restringir, absorver e se apoderar, comete ato de traição contra a essência divina de seu próprio funcionamento: o ato de distribuir.
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