domingo, 8 de março de 2009

E Carmen, aonde está?

Por Lucas Alvares

A jornalista Dulce Damasceno de Brito, morta em novembro do ano passado, conviveu com Carmen Miranda em Beverly Hills durante os anos 40 e 50. Em dezenas de entrevistas realizadas no período, ouviu uma Carmen libertária e liberal, polêmica e polemista, ironicamente conservadora - era ao mesmo tempo favorável à libertação da mulher e contrária ao divórcio - e conservante de seu próprio talento através das décadas. As impressões da cantora, disponibilizadas no site http://carmen.miranda.nom.br/ nos mostram uma personalidade de enorme tamanho. Ruy Castro, consagrado biógrafo, fez da vida e da obra de Carmen um Best Seller. Marília Pêra, em mais de uma ocasião, consagrou no teatro, como em uma ode ritualística, a memória da Pequena Notável. Em comum, todos estes têm ou tinham o carinho e a admiração por quem ultrapassa há 80 anos os limites de todos os ídolos que vieram antes dela. “Foi a primeira vez que eu biografei uma mulher. E a Carmen é tão apaixonante, tão carismática, que eu beirei a paixão física”, justificou Ruy durante uma palestra proferida a um pequeno grupo de alunos da Rede Municipal de Ensino na última sexta-feira, dia 6. Uma turma de surdos-mudos, algumas velhas fãs, leitores tradicionais de Ruy, mais interessados nele do que em Carmen e dois ou três repórteres da imprensa universitária. Durante as comemorações do centenário no semi-abandonado “Museu Carmen Miranda”, o panorama não foi muito diferente. Apesar de ótimas iniciativas, como a exibição do restaurado “Alô, Alô, Carnaval!” – único filme de Carmen produzido no Brasil ainda inteiramente conservado - a presença de público esteve muito aquém do esperado, e mesmo a divulgação por parte da imprensa foi restrita à notas de pé de página dos colunistas.
Trata-se, ora bolas, do centenário da maior brasileira de todos os tempos! Não é exagero afirmar que Maria do Carmo Miranda da Cunha, nascida no seio de uma típica família portuguesa em 9 de fevereiro de 1909 quebrou, paradoxalmente às suas origens, diversos tabus relativos ao papel da mulher na sociedade. Manteve tórridos e públicos romances com playboys, atletas, artistas e atores de cinema – todos grupos então marginalizados - cobertos à exaustão pela nascente imprensa brasileira dos anos 30 e, lógico, pela ávida indústria de fofocas da Holywood dos anos 40 e 50, pôs a barriga de fora nos shows e filmes, ficou milionária antes dos quarenta anos, fez um aborto e morreu em decorrência de um vício com o qual nunca conseguiu lidar: os barbitúricos. Como pode uma personagem de tamanha penetração popular ter a sua exaltação diária restrita à idolatria dos grupos de travestis de Copacabana e a alguns idosos saudosos dos tempos de juventude? É preciso redescobrir Carmen para que seu autêntico papel na formação da identidade nacional brasileira seja assim delimitado.
Não é verdade que ela tenha sido a nossa primeira cantora, tampouco a melhor cantora de sua geração. Muito antes de Carmen, as vedetes Pepa Delgado e Aracy Côrtes e a lírica Zaíra de Oliveira gravavam discos com relativa regularidade pela Casa Edison, e eram nomes bastante populares nas ruas cariocas. Se compararmos a capacidade vocal de Carmen à de sua principal rival, a irmã, Aurora Miranda, é nítido que Aurora era muito mais cantora. Se lembrarmos que “A Ditadora Risonha do Samba”, epíteto oferecido pelo radialista César Ladeira, poucas vezes foi escolha para Noel Rosa, Cartola e Ismael Silva, torna-se quase uma heresia classificá-la como sambista. Mas Carmen era muito mais do que isso. Era a dona dos sorrisos de batom vermelho, dos olhos verdes que fuzilavam platéias, dos “erres”
arrastados e do canto pequeno, porém natural, que trouxe por mais de 25 anos de carreira. Sua voz, considerada menor, nada mais era do que o eco das ruas. E se os sambistas sempre lhe torceram o nariz, o mesmo não se pode dizer dos grandes compositores de marchas carnavalescas. Braguinha, Haroldo Lobo, Herivelto Martins e Luiz Peixoto a adoravam, e a ofereceram sucessos como “Touradas em Madri”, entre muitos outros clássicos dos antigos carnavais. E, carnaval naqueles tempos – é bom que se diga – era muito mais de marchas do que de sambas. Os Cordões e Sociedades Carnavalescas ainda eram muito mais populares do que as nascentes Escolas de Samba.
Enquanto discutem-se miudezas como a boa vontade ou não de Noel e Cartola com o que para eles não era samba, se esquece do principal: tanto o samba quanto a marcha carnavalesca são autênticas expressões da cultura popular, com maiores influências do erudito e da cultura européia, mas essencialmente produções populares. E que Carmen, pelo ídolo que representou junto às camadas populares, pelo fato de ter sido a chapeleira que tornou-se rainha aos 20 anos de idade e por representar o Rio Luso-Brasileiro do início do século passado, é o sincretismo do samba em pessoa. De Marco dos Canavezes, cidadezinha próxima a Trás-dos-Montes ao Rio de Janeiro, da pequena chapelaria aos palcos de maior sucesso, da Lapa marginal – onde morou durante a infância – às mansões nos Estados Unidos.
Não há como dissociar Carmen do que há de mais popular e do que há de mais vencedor. Ela simboliza a nossa própria formação enquanto povo que mantém, desde então, numerosa e elogiada produção artística. Por sinal, o perfil multi-talentoso de uma mulher que desenhava o seu próprio figurino, criava as coreografias de suas músicas e mantinha uma criteriosa seleção sobre o que era por ela gravado mostra bem a presença de palco e espírito que só uma verdadeira estrela pode ter. Carmen foi estrela, ainda no Brasil, do disco, do rádio, do cinema e de um meio sempre marginalizado, tanto por aspectos morais quanto por sua questionável qualidade artística: o Teatro de Revista. O jornalista Haroldo Costa, reconhecido pesquisador da formação e desenvolvimento da MPB, defende o “Rebolado”, aonde Carmen teve o seu primeiro contato com os palcos teatrais – que a levariam depois à Brodway: “A tese da marginalização do teatro de revista é muito relativa, porque foi de lá que saíram não só intérpretes, mas compositores do quilate de Luiz Peixoto, Ari Barroso, Lamartine Babo, Custódio Mesquita, para falar apenas de alguns.“. E mais: Carmen Miranda foi decisiva para o fortalecimento do Cassino da Urca, antigo ponto da jogatina mambembe dos anos 20 e que – a beira da falência – foi resgatado com as apresentações da estrela. O sucesso “no Urca” fez de Carmen a mais ilustre moradora do bairro, dona de uma enorme casa que recebia todas as manhãs as visitas de dezenas de curiosas crianças moradoras do bairro, que iam atrás de umafoto ou de um pouco de atenção. Carmen atendia a todas, servia refrigerante e entregava fotos autografadas.
Sobre a Carmen dos Estados Unidos, todos já sabem. Foram 13 filmes, entre 1941 e 1953. Todos de qualidade duvidosa. Não obstante a revolução estética trazida pelo Novo Tecnicolor aliado aos berrantes trajes da “cantriz”, os personagens estereotipados e a produção e divulgação notadamente apressadas pelas metas da “Política da Boa Vizinhança” – em especial durante a 2ª Guerra Mundial – fizeram com que estes filmes fossem classificados por muitos cinéfilos como obras menores. O “Bando da Lua”, que habitualmente acompanhava Carmen nos shows e filmes pelos Estados Unidos, aparecia caracterizado como um grupo de “rumbeiros”, muito distantes da realidade brasileira. Obviamente que a importância de Carmen para a divulgação do Brasil, ainda que de forma estereotipada, é inegável. Porém, os 15 anos passados no estrangeiro serviram para que a atriz e cantora desenvolvesse uma profunda depressão, e a partir dela, um conhecido vício em barbitúricos e outros tipos de fármacos que consumia para dormir, acordar, se acalmar ou se agitar. E, muitas vezes, todos ao mesmo tempo. Sua morte, em 5 de agosto de 1955 – quando havia acabado de se pentear para ir dormir – deu fim prematuro a uma carreira que duraria, com certeza, muitas décadas mais no mais absoluto sucesso. Quando o coração de Carmen falhou pela primeira e única vez, uniu os corações de dois países de dimensões continentais em um pranto de dor e saudade. A letra de “Adeus Batucada”, um de seus maiores sucessos, ficou para sempre atrelada ao fim do ato de quem foi forte e delicada até a morte.
A transformação de Carmen em um dos últimos grandes mitos da modernidade fez com que a mulher brasileira ganhasse novos contornos: o de chefe de família, como Carmen foi por muitos anos, o de senhora de seu próprio destino, o que Carmen foi por alguns anos e o de colocar seu nome na história a ponto de ser para sempre lembrada. Esta obra, Carmen concluiu. A intensidade com que sua memória será reverenciada é que traz a maior dúvida deste centenário. Quando sua irmã –e melhor amiga – Aurora morreu, no final de 2005, apenas 15 pessoas compareceram ao sepultamento. Em um país que há séculos não preserva a sua própria memória, não exaltar na justa medida quem só nos fez sorrir é a prova cabal de que nossos ídolos nos falam e nos são contados apenas nos velhos discos e nos livros empoeirados, ouvidos e lidos por muitos, mas não por todos.

2 comentários:

Isabela de Sousa disse...

Belo texto: riqueza de pesquisa e detalhes! Parabéns!

Leandro SC - Estácio 2008 disse...

Carmen Miranda, uma referência de artista luso brasileira no famos centro artístico norte americano.

Excelente o texto, grande enólogo da notícia.

Abs!!!