sábado, 26 de dezembro de 2009

Prrrroposta


Sinto um olhar tão distante, inchado e avermelhado pelas lágrimas caídas da noite de luar. Longe daqui, sob a névoa da serra, encolhida entre os travesseiros pensa sorrateira no que não fazer amanhã. Sinto um respirar ofegante, talvez prejudicado pela poeira de um quarto há muito trancado. Balança a cabeça, para frente e para trás, em delicados movimentos de dúvida. Boceja, esfrega os olhos. Dois olhos castanhos, solenes. Olhos castanhos têm a beleza da simplicidade, a espontaneidade de se ter o que quase todos têm. Esqueceu longe dali um leque, um cartão de crédito e um pacote colorido. Dentro dele, um pão-de-mel. Sinto um sussurrar indiscreto, como se cantarolasse alguma canção de Roberto Carlos ou Reginaldo Rossi. Canção que fala sobre os esquecidos que jamais esqueceremos. Conversa, delicada, com a gambá que ali fez ninho e que caminha pelo forro do teto acompanhada por três ou quatro filhotes, todos ainda de peito. Arruma o baby doll. Levanta um pouco, vai até a janela e põe-se a fitar o céu estrelado da serra que, longe da poluição da metrópole, abençoa aqueles vinte ou trinta mil refugiados. Talvez, próximos do anno bom, uns poucos mais. Está sozinha, a duas horas de sua outra mão, seu outro pé e, pasmem, seu outro coração. Está perdida nas amarras do sossego, longe de todos os outros, perto de todos os seus. Está saudosa do amor, amado amante, que lhe aperta a mão, morde a orelha e bafeja, assanhado, em pescoço moreno. Está a madrugar seus sonhos, de um ano bem melhor aonde, enfim, possam ter definições e propostas formais de eternidade. Trocarão alianças, beberão no mesmo copo, juntarão os seus panos e sonharão, a estas horas, com suas cabeças coladas no mesmo travesseiro. Sonharão, quem sabe, o mesmo sonho: caras de criança, dois amores, um casal.

Nenhum comentário: